Você tem olhado para você ultimamente?
Mia não sabia se era o cansaço extremo das noites sem dormir, daquele vazio que crescia exponencialmente dentro de si ou do fato que ela não conseguia parar para respirar entre suas tantas tarefas, mas o fato era que ela desaparecia de si mesma.
Por alguns breves momentos, ela não sabia onde ia parar. Sem perceber, começava a olhar um avião passando na frente da sua janela do seu apartamento que ficava no 45º andar ou ao fixar a cor da pétala de uma flor que tinha em sua escrivaninha ou até simplesmente olhando para o nada, o pensamento de Mia navegava em uma mar desconhecido. E quando ela recobrava os seus sentidos, depois de alguns milésimos de tempo velejando neste oceano, sentia este desintegrar.
Este sentimento, de tão forte e tão real, passou a se tornar uma certeza em sua vida. Sim, não era só o seu pensamenta que sumia em alguns espectros do dia, a própria Mia estava desaparecendo.
Ela se perdia nos calendários, nas datas… Esquecia dos aniversários dos seus melhores amigos, da sua companheira e até do seu próprio. Aliás, ela sabia a data de todos eles, mas vivia em outro compasso. O 5 era 15 e o 23 ainda era 2. Abril era dezembro e novembro era fevereiro. Nada fazia mais sentido naquela vida.
De monotonia, Mia não tinha era nada. Era mãe de duas crianças perfeitas, uma de 4 para 5 e uma de 2. Decidiram ter uma escadinha, Mia foi quem engravidou. Lara não conseguia engravidar. Coube a Mia assumir ambas gestações.
Lara era incrível com ela. Dava suporte em todas as iniciativas de Mia. Estava sempre ao lado, tentando participar de tudo, mesmo com todas as viagens que tinha que fazer em decorrência de seu cargo. Lara era executiva de uma grande corporação. Mia também era até engravidar.
As duas se conheceram em um desses eventos em que pessoas querem ver e ser vistas. Lara sempre se deu bem em todo este universo. Mia já sofria. Fazia bem, mas a sua bateria social se esgotava bem antes do que se deveria. Razão talvez que depois da segunda gravidez decidiu não continuar neste caminho.
Aliás, ela não sabe até hoje se foi ela que desistiu do caminho ou o caminho que não deixou que ela continuasse nele. Todo mundo é tão legal hoje em dia, né? Todo mundo fala tantas palavras bonitas. A gente fica seduzido por esta melodia. Acredita nela. Ela cresce tanto em nossas cabeças que deixamos de perceber se aquilo que pensamos é nosso ou do outro.
E tudo que Mia pensava ultimamente não parecia dela. Ela não sabe como foi parar ali, a sensação é que, por mais que supostamente ela havia decidido por tudo aquilo, ela tinha sido traida. Traida pelos seus pensamentos, pelo o que ela acreditava que tinha que ser ou se demonstrar socialmente. Mia queria ver um caminho. Ela só conseguia enxergar encruzilihada.
Seus filhos, pelo menos, a davam esperança. Ela sabia que eles poderiam ser melhores do que ela. Era a sua obrigação resolver todos os traumas que viveu para não passá-los adiante. Ela queria que eles fossem livres de qualquer lastro passado para construírem seus caminhos alicerçados e poderem errar por eles mesmos, sem outras vozes os atrapalhando.
Mia tinha muitas vozes dentro de si. A cada ano que ficava mais velha, mais vozes acumulava. Eram tantas vozes que ela não se lembrava a últimas vez que realmente escutou a ela mesma.
AH! E como ela queria se escutar. Como ela queria se ouvir novamente. Prestar atenção nos seus reais desejos, ensejos, propósito. Nem que fosse apenas um susurro ”Mia, eu estou aqui por você”.
Ela não lembrava mais da sua própria voz. Lara, das crianças, da sua mãe, do seu avô, todos os ex-chefes, os namorados e namoradas… as amigas, os amigos, aqueles que faziam bullying na escola… Agora, as mães das crianças da escola. De vez em quando, Mia gritava bem alto, especialmente quando estava sozinha, para fazer calar todas elas.
E, por alguns segundos, ela conseguia.
Não era sempre assim. Em outros momentos, Mia só ouvia este grande vazio. Que nem eco dava. E foi dentre estes dois mundos que Mia começou a desaparecer.
Ela era tão dedicada aos outros. Se doava tanto. Queria tanto o bem de todo mundo. Que todo mundo adorava estar ao seu lado. “Mia é uma ótima companhia”, exclamavam. Todo mundo queria estar com ela. Era quem mais entendia, quem mais ajudava e quem mais acolhia. Quem não quer estar ao lado de uma pessoa assim? Até Mia gostava desta Mia que tanto amavam.
Ninguém percebeu. Ela já estava resignada com o seu desfecho. Por um lado, sentia até um certo conforto. Não doía fisicamente. Só o seu ego. Que também se calou depois de não conseguir falar mais algo que todos que viviam dentro de Mia.
Ela acabou deixando se levar por este processo. Ia se desintegrando aos poucos. E tudo era tão lento que nenhuma pessoa reparou em seu esvair. Por dentre todos os seus afazeres, eventos, tarefas, obrigações, os pequenos momentos de sumiço foram se expandindo até ganhar todo o tempo de Mia, ou melhor, toda a Mia. Agora, não dava para voltar atrás. Ela havia desaparecido.
Afinal, Mia estava lá para todos.
Só não estava para ela.
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